CONTO | O menino do xale vermelho

    Num dia conturbado, numa loja bagunçada, envolvida por uma tristeza grande, jaz uma vendedora que ao me lembrar sinto um embrulho muito estranho na boca do estomago, não por sua beleza, ou simpatia, mais por meu sentimento em relação a ela, pois sim, temos algum laço que não é o foco desta história, mas, não se entristeça, ao desenrolar desta trama você, caro leitor, irá compreender de forma simplória e muito envolvente, espero, a relação de cada elemento descrito aqui, principalmente do meu xale vermelho. 

    Já lhes preparei o cenário deste encontro fabuloso, porém, não como isso aconteceu, me desculpe decepcioná-lo, mas foi bem simples, vi os lenços em amostra, e de forma brilhante, magnifica e muito prazerosa nós fomos apresentados um ao outro, me apaixonei de primeira mão, a cor vermelha fez com que meus olhos brilhassem, ao tocar o tecido senti um anjo me acariciando e quando vi já tinha-o comprado, assim como a varinha do Harry Potter lhe escolhera o meu xale não foi diferente, me sentindo especial, fui caminhando para casa, estava um dia ameno e decidi me cobrir com ele, para poder sentir o vento balançar suas pontas e como numa passarela, a estrela e o foco principal era apenas eu, um garoto simples, onde o restante da minha vida não importava mais, contas, universidade, trabalho, nada. Eu estava vivendo meu momento, descobri em mim a felicidade, a qual é escolher os detalhes que vão fazer parte do meu dia a dia e que serão responsáveis por minha felicidade, ou seja, não dependia de pessoas, na verdade nunca dependeu, talvez eu apenas não soubesse disso até aquele singelo encontro. 

    Chegando em casa pus meu lenço em minha bolsa de couro ecológico de cor preta, discreta e tão comum em seu formato retangular quase quadrada que com a alça transversal se tornara um acessório hétero normativo, ou seja, não iria arder aos olhos da sociedade, e o objeto responsável da descoberta da minha felicidade estaria de forma segura guardada. Ali, como se tudo ao redor estivesse congelado me peguei pensando no quanto a sociedade é responsável pela infelicidade e que mesmo eu sendo o único responsável por minha felicidade não seria o bastante, mas eu teria que passar por uma série de convenções que iriam aprovar o que poderia ou não fazer parte deste amontoado de situações boas em minha vida. 

    Entrei em casa, cumprimentei minha mãe, irmã, sobrinho, todos nesta mesma ordem e fui direto ao meu quarto, retirei meu xale vermelho de sua caixa protetora e o pus em cima de minha cama, se tivesse alguém assistindo a cena diria que eu estava religiosamente retirando um artefato santo de minha bolsa, o colocando cuidadosamente em seu leito para repousar. Sim, mais de fato era e ainda é um artefato valioso e que de forma milagrosa fez com que eu tivesse o encontro com meu eu verdadeiro e que sempre esteve escondido nas profundezas de meu subconsciente. 

    Aquele pedaço de pano de cor vermelha, fez com que meus dias fossem felizes, me pegava muitas vezes na vontade de voltar para casa e ir correndo para o meu quarto, para usá-lo como saia ou um tope, ou colocá-lo em minha cabeça e interpretar cenas de grandes atrizes nas novelas, e os critérios para a escolha destas cenas era apenas uma, o grande momento em que o cabelo longo e volumoso da personagem se mexeria, balançando de um lado ao outro, por fim eu sempre fazia desfiles de moda no meu quarto para poder fazer com que isso ocorresse. 

    Eu nunca fui chegado em me maquiar, nem ficar colocando roupas direcionadas ao publico feminino, mas sempre tive grande apreço e paixão em estar neste meio, porém sem saber que jamais poderia caminhar entre estes “dois mundos” criados socialmente, e pensando que só existia masculino e feminino, eu jamais poderia fazer o que me deixava feliz. Brincar de casinha, bonecas, nada, era tudo muito escondido, jamais poderia expor minhas habilidades delicadas, pois eu tinha nascido para ser homem, macho do pai e da mãe, que iria namorar uma menina branca, porque minha mãe jamais aceitaria ter uma nora e netos negros, sim, eu sempre ouvi isso, mais enfim, continuando, eu tinha centenas de carrinhos, soldados, eu sempre brinquei muito com estes brinquedos, mais o que eu queria mesmo era as bonecas e panelinhas. 

Eu queria chegar para a mãe e dizer: 

 - Oi mãe, então, eu sei que a senhora não vai gostar muito, mas eu quero poder brincar de casinha com as minhas irmãs, poder brincar de boneca e ficar trocando as roupas delas, poder brincar de lanchonete da Dona Florinda (Chávez). 

    Provavelmente depois de dar alguns paços para trás num quase infarto ela pegaria o chinelo e me afofaria as nádegas, por sempre imaginar esta cena eu nunca tenha dito a ela isso, mais hoje, com meu xale eu vi que eu já tinha idade o suficiente para buscar minha felicidade de forma autônoma e consigo hoje me lembrar do meu passado e me sentir leve, por saber que tudo que me prendia antes hoje não tem força para me parar, na verdade nem pernas para me alcançar. 

    Quero correr por campos floridos com meu xale para assistir os lírios crescendo e presenciando a minha felicidade, eu quero poder voar e ver as nuvens tocar as azas do avião, assim como este lenço toca a minha alma e liberta meus sentimentos, quero a cada dia da minha vida sair com ele em meus ombros e ser apenas eu, sem receber olhares tortos. Eu, quero poder ter a esperança de que haverá um mundo sem trancas e amarras e que todas as formas de expressão sejam leves e inspiradoras.

-Fim-

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