Trans literariedade, a perspectiva social dentro do livro George de Alex Gino


A HISTÓRIA E A PREOCUPAÇÃO COM O SOCIAL

História cativante, emocionante e extremamente reflexiva que tem como personagem principal George, uma linda garota em um corpo de menino. Suas lutas sentimentais e todo o processo de compreensão de seu corpo e sentimentos, suas relações sociais e familiares. A história tem como base pregar o amor, estando em todos os momentos do livro, pregando o amor ao diferente, ao próximo e, principalmente o amor ao desconhecido. Desmistificando alguns assuntos como bullying e gênero. Sendo uma história infantil, pois sua escrita é simplificada e muito transparente, não possui imagem, mas o tamanho da fonte é razoavelmente grande, dentre outros fatores que observamos ao longo de toda a leitura.
Ela nunca gostou de seu nome masculino, de suas roupas e ter que usar o banheiro dos meninos na escola, entre outras atividades que não lhe faziam feliz. Sua fuga daquele mundo que não lhe fazia parte era suas revistas escondidas em seu guarda roupa, e quando as folheava era o único momento de seu dia em que poderia se sentir ela mesma, se vendo nas meninas e mulheres das propagandas.
Sua turma apresentará uma peça de teatro para a escola, intitulada “A garota e o porquinho”, depois de sua professora ler a história em sala de aula, George se apaixona pela história, vendo uma grande oportunidade de mostrar para sua família quem realmente ela é, querendo interpretar Charlotte. Durante o desenrolar da história George tem dificuldades em conseguir interpretar Charlotte, pois a professora lhe diz que este é um papel de menina e com ajuda de sua melhor amiga Kelly, George consegue interpretá-la.
O personagem George chama a atenção para questões delicadas na vida de uma criança, fase de descobertas sentimentais e físicas, onde muitas vezes esta criança se sente sozinha. Acredito que muitas pessoas assim como eu, se viram nesta história, quando crianças passando por questões semelhantes, do porque não podemos brincas com brinquedos de meninas, porque a cor rosa é de menina e a cor azul de menino?
Podemos abordar neste ponto a educação de gênero, onde deixamos de separar “meninas para lá e meninos para cá”, e trabalhamos de forma ampla e muito mais profunda todas as questões que realmente são importantes e que devem ser ensinadas para um indivíduo, não dando ênfase a sexualidade e muito menos fazendo apologia a esta, como pessoas contrárias procuram refutá-la. Mas vamos partir, de forma sintetizada do ponto de que dizer que “meninas são melhores em determinadas coisas e meninos em outras” desestimula a busca de aprender algo novo ou que estejam em outro campo que previamente foi estipulado que o seu gênero não pode ocupar.
Este tratamento de diferenciação durante a vida escolar reflete muito na vida adulta, e a consequência disso é que a nichos profissionais totalmente dominado por um ou outro. Exemplo é em cargos de chefia e sofrem com disparidade de salário gritante. E além desta questão é feita uma denúncia social muito forte, a qual diz respeito ao gênero e a sexualidade de cada indivíduo o qual está em evidência ao longo de toda a vida de cada pessoa, sempre de forma direta ou indireta.
Diferenciar sexo, identidade de gênero e orientação sexual é fundamental para ter uma base daquilo que este livro discute, e quando se trata deste assunto a maioria das pessoas ficam confusas e não sabe distinguir o que é cada uma delas. Eu sempre me deparo em discussões com pessoas que ficam tratando em seus discursos a limitação no “masculino” e “feminino”, no “homem” e “mulher”, porém, não somente, mas tem muitas coisas por trás disso. Sexo é diferente de identidade de gênero, que diverge da noção de orientação sexual. Não devem ser usados como sinônimos e devem ser entendidos em sua complexidade e singularidade na formação de cada ser humano.
O sexo está definido no biológico de um ser humano, sendo definido pela combinação dos seus cromossomos com a sua genitália. Em um primeiro momento, isso infere se você nasceu macho, fêmea ou intersexual. No caso dos intersexuais, a mudança se caracteriza pela indeterminação do sexo biológico, se pensado no binarismo “macho” e “fêmea”. A intersexualidade pode se manifestar de formas diferentes, seja por conta de as gônadas apresentarem características intermediárias entre os dois sexos, ou o aparelho genital não condizer com o tipo cromossômico.
A identidade de gênero pode ser definido no cerne das teorias feministas e da teoria Queer, atualmente, o gênero é tido como categorias que são historicamente, socialmente e culturalmente construídos, e são assumidos individualmente através de papeis, gostos, costumes, comportamentos e representações. Judith Butler, pensadora sobre o assunto, ressalta que o gênero precisa ser assumido pela pessoa, mas isso não acontece num processo de escolha, e sim de construção e de disputas de poder, porque, afinal, o sistema de gêneros é hierárquico e conta com relações de poder.
A orientação sexual, e não opção sexual, diz respeito à inclinação da pessoa no sentido afetivo, amoroso e sexual. A sexualidade e gênero é representada por um conjunto de siglas, onde já foi GLS, passou por LGBT e passou por LGBTQ, hoje definida como LGBTQIAP+, cada sigla se refere de forma bem distinta a cada. O “L” de Lésbicas, “G” de gay, “B” de Bissexual, “T” de transexual e travestis, “Q” queer, “I” de intersex, “A” de assexual e “Ally” de aliados/simpatizantes a causa, “P” de pansexual, entre muitos outros termos relacionados e que a causa LGBTQIAP+ abraça de forma geral.
Esta obra cativa por sua forma singular e social, onde um mundo que não possui conhecimento de um processo tão grande e delicado que George passa, George representa cada LGBTQIAP+ que estão pelo mundo a fora, George me representou e me tocou profundamente. Esta obra ensina tanto crianças quanto adultos, mostrando que precisamos respeitar e amar o desconhecido, pois não estamos a par daquilo que cada um vive, passa ou já passou na vida, destaca a fragilidade e inteligência de uma criança, deixando entre suas mensagens que devemos ser delicados e buscar compreender a vida de uma criança. Ensina as crianças que mesmo que pareça nunca estão sozinhas, que devem respeitar o espaço e até mesmo o não conhecimento das pessoas que vivem a sua volta, mesmo que isso machuque.
Esta obra é jovem em publicação e em temática, sendo definida como revolucionária por seu conteúdo. Fico sem fôlego só em pensar na infinidade de definições que posso dar a esta grandiosa obra. Encerro este ensaio pedindo, mesmo que eu não tenha contemplado todos os quesitos exigidos, que cada pessoa que ler este documento que procure ler esta obra, não sendo uma indicação de um leitor apaixonado, mas de uma pessoa que foi de forma extraordinária tocada pela história.

DADOS GERAIS DA OBRA

·         Autor: Alex Gino;
·         Editora: Galera Junior;
·         Páginas: 142;
·         Publicação: 2015 em Nova York;
·         Tradução para o português: Regiane Winarski;
·         Publicação no Brasil: 2016 no Rio de Janeiro;
·         Classificação: infantil;
·         Primeira história infantil trazida ao Brasil que trata de crianças transgêneros.

REFERENCIAS
Guia completo de sexualidade, gênero e relacionamentos. Disponível em: < http://sapatomica.com/2015/09/guia-completo-de-termos-de-sexualidade-genero-e-relacionamentos/>. Acesso em: 11 mai. 2017.

Sobre transexualidade na infância e na adolescência. Disponível em: < http://g1.globo.com/platb/dicas-para-pais-e-filhos/2013/11/11/sobre-a-transexualidade-na-adolescencia//>. Acesso em: 15 mai. 2017.

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